Em 2024, o Iron Maiden, uma das maiores instituições do rock pesado mundial, realizou duas apresentações em São Paulo durante a passagem da turnê The Future Past, entregando a seus fiéis admiradores paulistanos uma experiência marcada por escolhas pouco convencionais no repertório. A proposta de revisitar faixas de Somewhere in Time (1986) e Senjutsu (2021) dividiu opiniões: enquanto muitos fãs celebraram a oportunidade de ouvir ao vivo músicas menos frequentes nos setlists da banda, outros reclamaram da falta de clássicos indispensáveis de sua trajetória. A ausência de hinos como “2 Minutes to Midnight”, “Aces High”, “The Number of the Beast” e “Hallowed Be Thy Name”, alimentou as críticas de parte do público.
Porém, quase como uma resposta aos fãs que sentiram falta de determinados sucessos na excursão anterior, o conjunto retornou à capital paulista com um repertório capaz de agradar especialmente aos admiradores de sua fase mais emblemática. A Run For Your Lives World Tour, concebida para celebrar os 50 anos de história do grupo, concentrou sua seleção em músicas dos álbuns lançados entre 1980 e 1992, período que abrange alguns dos trabalhos mais importantes e influentes de sua discografia. O resultado foram duas apresentações com ingressos esgotados no Nubank Parque, local popularmente conhecido como “Estádio do Palmeiras”. Os shows também tiveram um significado especial por marcarem a primeira passagem da banda por São Paulo desde a saída de Nicko McBrain, baterista que integrou o Iron Maiden por mais de quatro décadas e foi substituído por Simon Dawson, músico que já trabalhava com Steve Harris no projeto British Lion. Representantes do Heavy Metal Online tiveram a oportunidade de conferir a segunda data, que aconteceu na terça-feira (27).
O Iron Maiden é conhecido por escalar atrações de peso para abrir seus shows: bandas que, por si só, costumam ocupar posições de destaque nos cartazes dos principais festivais de rock ou lotar casas de espetáculos pelo mundo. Desta vez, não foi diferente. A missão de dar início à noite ficou a cargo do Alter Bridge, banda estadunidense formada por ex-integrantes do Creed — Mark Tremonti (guitarra solo e vocais de apoio), Brian Marshall (baixo) e Scott Phillips (bateria) — ao lado do vocalista Myles Kennedy, também conhecido por seu trabalho solo e pela parceria com Slash. Vale lembrar que o quarteto realizou um show no Espaço Unimed, em novembro de 2023.
O repertório do Alter Bridge foi relativamente enxuto, com apenas oito músicas. “Silent Divide”, destaque do álbum homônimo lançado em 2025, abriu a apresentação. Na sequência, o grupo emendou três faixas de Fortress: “Addicted to Pain”, “Cry of Achilles” e a canção-título. A sequência evidenciou a combinação de influências grunge com elementos de pop rock, resultando em uma sonoridade acessível em combinação de uma dose certeira de peso. Entre os destaques do setlist, “Ghost of Days Gone By” e “Rise Today” foram novidades em relação à apresentação de domingo, quando ambas ficaram de fora.
Embora a sonoridade alternativa do Alter Bridge não esteja necessariamente alinhada à proposta musical do Iron Maiden, o quarteto conseguiu conquistar a plateia, que acompanhou o show com atenção. Como ressalva, ficou a utilização pouco expressiva do telão de LED, que se limitou a exibir o nome da banda durante a apresentação. O recurso poderia ter sido explorado de maneira mais criativa, com projeções visuais que dialogassem com as músicas e contribuíssem para enriquecer a experiência do público.
Ao término da apresentação, os roadies correram para realizar ajustes no palco. Por volta das 20h40, “Doctor Doctor”, clássico do UFO, começou a ecoar pelos alto-falantes, levando o público à loucura e anunciando que Bruce Dickinson (vocais), Steve Harris (baixo), Dave Murray (guitarra), Adrian Smith (guitarra), Janick Gers (guitarra) e Simon Dawson (bateria) em breve entrariam em cena. Pouco depois, as luzes do estádio se apagaram, e veio a introdução sonora “The Ides of March”, acompanhada de uma belíssima animação que retratava as ruas de East London e os clubes onde a banda realizou suas primeiras apresentações. Na sequência, o cenário deu lugar a imagens da capital francesa e, como um susto, os músicos surgiram no palco para abrir o espetáculo com “Murders in the Rue Morgue”, clássico do álbum Killers. Logo de cara, impressionou a vitalidade de Bruce Dickinson, que percorreu o palco de ponta a ponta, interagindo com o público e demonstrando uma disposição invejável para alguém que está prestes a completar 68 anos. Na sequência, veio “Wrathchild”, com suas linhas de baixo marcantes e a energia característica dos primeiros trabalhos da banda. Aqui, destaque também para a performance de Simon Dawson, que executou com precisão as passagens de bateria originalmente criadas por Clive Burr e posteriormente interpretadas por Nicko McBrain ao longo de mais de quatro décadas. Já “Killers”, faixa-título do álbum lançado em 1981, levou a plateia ao delírio com a entrada de um boneco gigante do mascote Eddie, caracterizado com visual punk e empunhando um machado. Para encerrar o bloco dedicado à era Paul Di’Anno, a escolhida foi “Phantom of the Opera”, uma composição complexa, repleta de mudanças de andamento e extensas passagens instrumentais. A grandiosidade da música permitiu que os músicos da “cozinha” demonstrassem toda a sua técnica, enquanto Bruce chegou a deixar o palco momentaneamente.
Dando início à chamada era Bruce Dickinson, veio nada menos que “The Number of the Beast”, cuja execução foi acompanhada por imagens de clássicos do cinema de terror e pelos primeiros efeitos de pirotecnia da noite. Na sequência, o frontman fez uma breve pausa para conversar com a plateia, agradecer a presença dos fãs e destacar a importância do Brasil na trajetória do Iron Maiden. Em seguida, anunciou que a banda executaria uma música que jamais havia sido apresentada em solo brasileiro. Foi assim que chegou a vez de “Infinite Dreams”, faixa de Seventh Son of a Seventh Son marcada por suas elaboradas passagens instrumentais e pelos diálogos entre as guitarras. Logo depois, “Powerslave” ganhou vida com uma belíssima animação da capa do álbum, enriquecida por efeitos visuais que exploravam recursos de inteligência artificial. Para completar a atmosfera egípcia da apresentação, Bruce Dickinson surgiu utilizando uma máscara temática, reforçando o caráter teatral da performance. Aqui, Adrian Smith, Dave Murray e Janick Gers também deram um espetáculo à parte. Os três guitarristas alternaram momentos de destaque, avançando para a parte frontal do palco e dividindo os holofotes em meio a solos extensos e cheios de personalidade. Encerrando o bloco, “2 Minutes to Midnight” colocou o estádio inteiro para cantar, com o público entoando em uníssono um dos refrões mais marcantes da carreira do conjunto britânico.
Em mais um momento de interação com a plateia, Bruce Dickinson aproveitou para fazer uma brincadeira. Com uma garrafa em mãos, o vocalista comentou que havia pedido cachaça, mas recebido água, e ameaçou demitir o assistente de palco. A descontração seguiu com “Rime of the Ancient Mariner”, composição com mais de 13 minutos de duração que integra o álbum Powerslave. Aqui, os efeitos especiais, que já vinha enchendo os olhos, alcançaram o ápice: a produção foi acompanhada por uma animação absurdamente detalhada que dava vida a história narrada na composição. Além disso, o cenário foi decorado simulando uma embarcação. “Seventh Son of a Seventh Son” também entregou elementos visuais fortes. Nesta faixa, a iluminação e os efeitos criaram uma ambientação que remetia a uma paisagem polar, como se a banda estivesse se apresentando no meio da Antártida.
A reta final do repertório regular foi marcada por três clássicos. Em “The Trooper”, a encenação incluiu a tradicional interação entre Eddie e os integrantes da banda. Já “Hallowed Be Thy Name” trouxe Bruce Dickinson cantando dentro de uma gaiola, em sintonia com a narrativa da música. Para encerrar o set principal, “Iron Maiden” contou com a aparição de um Eddie gigantesco. Em vez de uma estrutura física que ocupasse boa parte do palco, a produção apostou em um holograma tridimensional desta vez, criando a impressão de que o mascote poderia ultrapassar os limites da tela.
Após uma breve pausa, a voz de Winston Churchill ecoou pelo estádio, acompanhada por efeitos sonoros de aviões em combate. A introdução preparou o público para “Aces High”, que ganhou uma animação protagonizada por Eddie em meio a um confronto aéreo contra aviões nazistas. Na sequência, “Fear of the Dark” transformou o estádio em um grande coro, com milhares de fãs cantando em uníssono e iluminando o ambiente com as lanternas dos celulares. Coube a “Wasted Years” encerrar a apresentação, levando a plateia a reunir as últimas energias para acompanhar o refrão de um dos grandes hinos da banda.
Um dos principais méritos da apresentação foi, certamente, o repertório absurdamente preciso, que percorreu diferentes fases da carreira do grupo e manteve o público participativo ao longo de quase duas horas de show. Outro destaque foi o investimento nos recursos audiovisuais. As animações nos telões de LED, os efeitos de iluminação e os elementos cenográficos contribuíram para construir diferentes atmosferas ao longo do espetáculo, substituindo parte dos recursos visuais tradicionais por uma abordagem multimídia mais elaborada. A tecnologia, nesse contexto, funcionou como complemento à música, sem retirar o protagonismo das composições e da performance dos integrantes.
Já o novo baterista Simon Dawson demonstrou segurança na execução do repertório e acompanhou adequadamente as variações rítmicas das músicas. Porém, ficou nítida a ausência de carisma do músico. Em certos momentos, parecia que ele não estava 100% envolvido com a atmosfera do espetáculo, como se estivesse ali apenas para cumprir por obrigação — totalmente diferente de Nicko, que se entregava durante as execuções, chamando tanta atenção quanto os integrantes que estavam na linha de frente do palco. Ainda assim, no saldo geral, a atuação do baterista não ofuscou a apresentação que reafirmou a força do Iron Maiden como um dos principais nomes da história do heavy metal e a devoção dos paulistanos em relação ao seu legado.Fotos: Assessoria Midiorama