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Minha primeira madeirite

Por Rico de Souza — Rio de Janeiro 04/11/2026 19h11 Atualizado 04/11/2026 Desde garoto, eu sonhava em ter minha própria prancha de surf. Via meus amigos surfando com pranchas de madeira e fibra de vidro e ficava imaginando o dia em que teria a minha.

Minha primeira madeirite
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Por Rico de Souza — Rio de Janeiro

04/11/2026 19h11 Atualizado 04/11/2026

Desde garoto, eu sonhava em ter minha própria prancha de surf. Via meus amigos surfando com pranchas de madeira e fibra de vidro e ficava imaginando o dia em que teria a minha. Chegava a ficar de pé em cima da cama, imaginando o mar, o barulho das ondas e a prancha debaixo dos meus pés.

Na década de 1960, o surf ainda era pouco conhecido no Brasil. Não existiam publicações nacionais sobre o esporte e muita gente enxergava os surfistas como cabeludos e desocupados. Meus pais também não aprovavam muito a ideia, mas isso nunca me fez desistir.

Para realizar meu sonho, comecei a juntar dinheiro fazendo rifas, vendendo garrafas, jornais, chumbos e outros apetrechos. Até que, em 1964, consegui comprar minha primeira Madeirite em uma serraria no Arpoador, ao lado da oficina do pai do Petit, o Menino do Rio, que ficava localizada na Francisco Otaviano.

Primeira foto do Rico de Souza surfando, em 1966 — Foto: Fedoca

Lembro do orgulho que senti naquele momento. Ainda menino, tinha conseguido comprar algo que desejava tanto com meu próprio esforço.

Mas surfar com ela não era nada fácil, a prancha não tinha flutuação e para entrar no mar, precisava segurá-la com uma mão e remar com a outra. Também usávamos somente 1 pé de pato, na perna traseira, que muitas vezes atrapalhavam na hora de ficar de pé.

Costumava pegar ondas com Serginho, Ratinho do Leblon, Ricardo Faquir, Estrela, Carlos Mudinho e Geraldinho. Este, por sinal, já tinha até uma prancha de fibra de vidro. Pegávamos onda no Pontão do Leblon, e Mudinho sempre foi meu grande parceiro.

Era uma época em que as condições do mar também eram bem diferentes das atuais. A água sofria com a poluição, e chegamos a chamar aquele lugar de shit point, por causa do esgoto.

Houve um tempo que as praias cariocas amanheciam sujas de óleo e piche despejados por navios. Muitas vezes saiamos da água com os pés e a pele manchados de preto.

Rico e Petit, o menino do Rio — Foto: Rogério Ehrlich

Mesmo com todas essas dificuldades, nada diminuía minha vontade de surfar. O Leblon foi meu primeiro grande reduto, onde vivi muitas experiências e comecei a construir minha história com o esporte.

Aquela primeira prancha, comprada com tanto esforço, representou muito mais do que a realização de um sonho de infância. Foi o começo de uma vida dedicada ao surf.

Rico de Souza com sua primeira prancha de madeirite — Foto: Marcelo Piu/Agência O Globo

Rico de Souza e Carlos Mudinho — Foto: Gerson Filho

Primeira Madeirite (à esquerda) em exposição no Museu de Surf Rico — Foto: Divulgação